Como é morar em Portugal com filhos: escolas e diferenças na educação

Como é morar em Portugal com filhos: escolas e diferenças na educação

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Nessa mesma época, um ano atrás, estávamos planejando uma grande aventura em família. Decidimos morar em Portugal com filhos por 6 meses. Já tínhamos morado lá em 2001, recém-casados e sem filhos. Muita gente me pergunta porque Portugal? Tenho muitos motivos pra justificar essa escolha – afetivos e práticos – mas o principal foi porque meu marido queria estudar na Nova SBE, universidade incrível que inaugurou um campus moderníssimo em Carcavelos, praia deliciosa que fica na Linha de Cascais (cerca de 30 minutos de trem de Lisboa).

 

Morar em Portugal

Praia de Carcavelos

 

Morar em Portugal com filhos, mas na praia! 

Morar na praia era uma premissa importante, então começamos a primeira parte do planejamento: encontrar escolas para as meninas na região de Carcavelos para que elas pudessem ir a pé ou de bicicleta para a aula. No começo, minha ideia era matriculá-las na escola pública, mas comecei a pesquisar e descobri que talvez a burocracia atrapalhasse um pouco. Não estaríamos lá no período de matrículas e não queríamos correr riscos, já que seriam poucos meses de aula (de setembro a janeiro).

Encontrei duas escolas particulares bem recomendadas (e bem posicionadas nos rankings). Uma dessas escolas faz parte do grupo que as minhas filhas estudam no Brasil, então contei com a ajuda do diretor daqui para conseguir a vaga lá, mas só tinha para a mais velha, que fez o começo do 11º ano do Secundário (equivalente ao 2º ano do Ensino Médio). A mais nova foi para uma escola menor, que vai só até o Fundamental 2 (lá chamado de 2º Ciclo). Ela já cursava o 5º ano aqui e recomeçou a mesma série lá.

Morar em Portugal: diferenças no ensino

Colégio Marista de Carcavelos

 

Um detalhe importante: o Secundário em Portugal é direcionado por áreas. A Marina quer cursar Direito na graduação, então escolheu Línguas e Humanidades. Mas, chegando lá, descobriu que também poderia ter optado por Ciências Socioeconômicas. As matérias comuns a todas as áreas são Língua Portuguesa, Educação Física, Filosofia e uma Língua Estrangeira. Ela também tinha aulas de Sociologia, História, Geografia e Matemática aplicada à Ciências Sociais.

As duas recomeçaram o ano letivo que já estavam cursando e, na volta, seguiram para o ano seguinte. Ou seja: “pularam” meio período. Tive muitas dúvidas de como seria esse processo, consultei os diretores das escolas aqui, conversei com elas e decidimos que seria uma boa solução. Elas não queriam se separar dos colegas, voltar um ano letivo no Brasil, e fizemos esse acordo. Se foi uma bom? Não faço a mínima ideia! Estaria descobrindo agora se não tivesse acontecido essa pandemia e mudado nossa perspectiva de tudo!

Com a mais velha, minha preocupação era que ela perdesse conteúdos de matemática, física, biologia e química, que seriam mais difíceis de retomar no 3º ano (de vestibular). E, mesmo as outras disciplinas, eram bem menos puxadas do que as ensinadas no Brasil. O que percebo é que lá tem menos conteúdo, mas eles são mais aprofundados. Exemplo: A Marina passou três meses interpretando um mesmo texto do Padre Antônio Vieira, fazendo trabalhos e projetos sobre ele. Matérias como Filosofia e Sociologia, que recebem pouca importância no Brasil, são levadas a sério por lá.

 

Primeiro dia de aula da Olivia

 

No 5º ano também tive a sensação de que o ritmo é mais lento e mais aprofundado. No caso de matemática, achei o ensino bem antiquado: muita decoreba e pouca lógica, mas gostei da forma como eles valorizam a Literatura e a História do país. Também achei bem interessante a abordagem de disciplinas como Educação Tecnológica (que não tem nada a ver com informática: eles trabalham com sucata, robótica etc), Educação Visual, Educação Musical e Cidadania & Desenvolvimento. São disciplinas que têm a mesma carga horária que Inglês, Ciências e HGP (História e Geografia de Portugal), por exemplo. Outro ponto para a educação em Portugal: a Olivia estudava com mais 13 crianças. Na turma da Marina (11º) eram 16 no total.

 

Morar em Portugal

Marina a caminho do 1º dia de aula

 

As duas escolas me pareceram bem mais rígidas do que as escolas que as minhas filhas frequentam (ou já frequentaram) no Brasil. A relação com os professores era mais formal, com mais disciplina e menos liberdade de expressão. Mesmo entre os pais, as relações pareciam bem mais formais.

Falei de algumas percepções, mas isso não é nada conclusivo sobre qual ensino é melhor, em Portugal ou no Brasil. Tive apenas dois exemplos (uma escola religiosa e outra laica) e muito pouco tempo para conhecer a fundo a educação no país. Lembrando que a comparação é entre escolas particulares. Mas, o que posso afirmar, é que se fosse morar por mais tempo em Lisboa, buscaria escolas menos tradicionais e conservadoras. No mais, acho que são diferenças culturais normais que nos deparamos quando fazemos a escolha de viver em outro país.

Na escola da Olivia havia duas crianças brasileiras da turma, o que ajudou muito na socialização. Como há muitos brasileiros vivendo em Portugal, as crianças e adolescentes de lá estão muito familiarizadas com os nossos hábitos e a nossa cultura, consomem muito entretenimento do Brasil, conhecem as nossas gírias e comidas. Os professores estão bem preparados para ajudar na adaptação. Na escola da Marina não havia brasileiros na mesma sala, mas vários em outras classes.

 

Morar em Portugal

Olivia comemorando o aniversário com amigos da escola: piquenique no parque com pão de queijo, brigadeiro e coxinha!

 

Essa troca foi muito rica e tenho certeza que as minhas filhas aprenderam muito com a experiência. Independente das questões de conteúdo, o aprendizado foi enorme. Mas não foi fácil: elas sentiam muita falta dos amigos, dos avós, dos primos, da rotina que tinham aqui… Mas, o que construímos lá – nossa relação como família, o olhar para o mundo sobre outra perspectiva, a resiliência para lidar com os desafios que surgiram, a necessidade de fazer novas amizades e todo o combo que vem junto com uma mudança de país, mesmo que por pouco tempo – nos transformou muito e têm sido fundamental para enfrentarmos os desafios que virão daqui pra frente. Portugal nos fez muito bem, sentimos muitas saudades e temos muita vontade de visitar os grandes amigos que fizemos por lá.

Outras informações sobre Morar em Portugal: escolas

Valor médio da mensalidade: 350 Euros

Valor médio para alimentação (almoço e lanche) na escola: 100 Euros/mês

Horário das aulas no 2º Ciclo: das 9h às 15h45 (segunda à quinta) e das 9h às 12h30 (sextas).

Horário das aulas no Secundário: das 8h20 até 17h30 (3 vezes por semana) e das 8h20 até 13h30 (e vezes por semana)

*Esses horários variam bastante de acordo com a escola e ano letivo. Há atividades extraclasse pagas à parte após o fim da aula, mas não são obrigatórios.

Leia também: Guia de Lisboa com Crianças

Fernanda Ávila é jornalista, autora do Guia Nova York com Crianças, e mãe da Marina e da Olivia. Morou em Nova York e Lisboa e é sócia da Pulp Edições.

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